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Bunkers da Albânia: os 750 mil abrigos de concreto construídos para uma invasão que nunca aconteceu


Viajar pela Albânia é deparar-se repetidamente com estruturas estranhas de concreto pontilhando a paisagem. Há bunkers em praias, em campos agrícolas, em montanhas, em quintais de casas, até no meio de cidades.


Pequenos bunkers para duas ou três pessoas, bunkers maiores com múltiplas salas, bunkers camuflados em encostas. São milhares – oficialmente, 173.371 bunkers construídos entre 1967 e 1986.


É um legado excêntrico de Enver Hoxha, ditador comunista que governou Albânia de 1944 até sua morte em 1985, transformando o país no regime mais isolado da Europa.


Rompimento geral

Enver Hoxha chegou ao poder em 1944 liderando partisans comunistas albaneses que lutaram contra ocupação italiana e alemã durante Segunda Guerra Mundial. Inicialmente aliado de Iugoslávia e União Soviética, rapidamente desenvolveu paranoia em relação a vizinhos e aliados.


Em 1948, rompeu com a Iugoslávia de Josip Broz Tito, acusando-o de revisionismo. Alinhou-se então com Stalin, mas quando Krushchev denunciou Stalin em 1956, Hoxha rompeu com União Soviética também, considerando-a traidora do verdadeiro comunismo.


Voltou-se para China de Mao Tsé-Tung, mas quando a China iniciou a abertura com Estados Unidos nos anos 1970, Hoxha rompeu com Pequim também. No final, a Albânia estava completamente isolada e sem aliados.


Hoxha convenceu a população de que invasão era iminente e que a única salvação era a preparação total para a guerrilha.


A construção dos bunkers

Em 1967, Hoxha iniciou programa massivo de “bunkerização” da Albânia. O conceito era simples: se o país fosse invadido, a população inteira – armada e treinada – se refugiaria em bunkers espalhados estrategicamente por todo território.


Bunkers foram projetados para resistir a ataques com tanques e até explosões nucleares, teoricamente. A maioria foi construída em concreto reforçado, com paredes de até um metro de espessura.


A construção consumiu recursos massivos de um país já empobrecido. Estima-se que custou 10% do PIB albanês ao longo de duas décadas.


A invasão que nunca veio

Ninguém invadiu a Albânia. Mas Hoxha manteve a narrativa de ameaça iminente até morrer em 1985. Seu sucessor Ramiz Alia continuou por alguns anos até que, em 1991, o regime comunista albanês colapsou junto com resto da Europa Oriental.


A Albânia emergiu do isolamento como país mais pobre da Europa e pontilhado por 173 mil bunkers de concreto.



O que fazer com os bunkers?

Após 1991, surgiu uma questão prática: o que fazer com milhares de bunkers? Explodir todos seria caro e perigoso. Muitos estão em áreas residenciais ou agrícolas, e o concreto reforçado é difícil de demolir.


Então os albaneses improvisaram. Bunkers viraram:


• Abrigos para animais


• Depósitos de ferramentas agrícolas


• Pontos de venda de frutas à beira de estradas


• Banheiros públicos


• Casas para sem-teto


• Cafés e bares nas cidades


Alguns foram transformados em museus. O BunkArt em Tirana ocupa um bunker gigante subterrâneo originalmente construído para proteger o governo em caso de ataque nuclear.


Hoje abriga exposições sobre o comunismo, arte contemporânea e história albanesa. O BunkArt 2, também em Tirana, foca especificamente na Sigurimi, polícia secreta albanesa. Mostra os métodos de vigilância e prisão contra dissidentes, lembrando que os bunkers não diziam respeito apenas sobre invasão externa, mas também sobre o controle interno.



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