Estrasburgo: a capital da Alsácia onde França e Alemanha se encontram em 2 mil anos de história

Faixa estreita de terra na fronteira entre França e Alemanha, a Alsácia foi, durante séculos, território disputado pelas duas nações. E o resultado dessa disputa é uma cultura que não pertence completamente a nenhum dos dois lados, mas que tem uma identidade própria.
Uma história de fronteiras
A Alsácia foi francesa, alemã, francesa de novo, alemã de novo e definitivamente francesa, mas esse resumo simplifica demais uma história muito mais complexa.
Durante a Idade Média, a região fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1648, pelo Tratado de Westfália que encerrou a Guerra dos Trinta Anos, passou para a França, e foi sob domínio francês que Estrasburgo se desenvolveu como capital de uma província próspera, com forte identidade local.
Em 1871, após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana, a Alsácia foi anexada pelo recém-criado Império Alemão. Os alsacianos que quisessem manter a cidadania francesa tinham até outubro de 1872 para emigrar, e muitos o fizeram.
Os que ficaram viveram sob administração alemã por quase cinquenta anos, com o alemão imposto como língua oficial e o francês proibido nas escolas.
Em 1918, com a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, a Alsácia voltou à França. Em 1940, foi novamente anexada pela Alemanha nazista. Em 1945, voltou à França pela última vez, e assim permanece.
Essa história de alternâncias deixou marcas. As casas em enxaimel – a arquitetura típica da região, com estrutura de madeira aparente preenchida por argila – são idênticas às que se encontram do outro lado do Reno, na Alemanha.
Os sobrenomes são frequentemente germânicos. O dialeto alsaciano – o Elsässerditsch – é uma língua germânica que muitos idosos ainda falam no cotidiano. A gastronomia mistura a técnica francesa com os ingredientes e preparações alemãs.

Uma das cidades mais belas da Europa
O centro histórico, chamado de Grande Île, é uma ilha formada pelos braços do Rio Ill e foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1988, sendo a primeira cidade inteira a receber essa distinção.
O bairro Petite France, no extremo sudoeste da ilha, é o mais fotografado: antigas casas debruçadas sobre os canais, com a Barragem Vauban ao fundo – uma construção militar do século XVII que hoje funciona como terraço panorâmico sobre a cidade.
No centro da ilha, a Catedral de Notre-Dame de Estrasburgo domina tudo. Construída entre os séculos XII e XV, foi durante duzentos anos a construção mais alta do mundo, com seus 142 metros.
É hoje a sexta catedral mais alta do planeta e uma das mais elaboradas da arquitetura gótica europeia.
No interior, o relógio astronômico do século XVI ainda funciona e marca, além das horas, o dia da semana, o mês, o ano, as fases da lua e a posição dos planetas.
Às doze e trinta, um mecanismo faz os apóstolos desfilarem diante da figura de Cristo, um espetáculo mecânico que atrai multidões há quinhentos anos.

À mesa na Alsácia
A gastronomia alsaciana é uma das mais distintas da França. A choucroute garnie – chucrute com carnes defumadas, linguiças e batatas – é o prato regional por excelência, de origem claramente germânica, mas preparado com uma delicadeza que os alsacianos reivindicam como própria.
A tarte flambée – uma base fina de massa coberta com creme de nata, cebola e pequenos pedaços de carne de porco, assada em forno a lenha – é a ‘resposta’ alsaciana à pizza.
Os vinhos brancos da Alsácia – Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris – são produzidos numa tradição própria, com uvas que na Alemanha produzem vinhos diferentes porque o terroir e o estilo de vinificação alsacianos são inconfundíveis.
É uma cozinha que conta, em cada prato, a história de uma região que sempre esteve entre dois mundos, e aprendeu a tirar o melhor dos dois.

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