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Ilha de Páscoa: como os misteriosos Moais de Rapa Nui continuam desafiando arqueólogos do mundo inteiro


Quando os antigos habitantes da Ilha de Páscoa a chamavam de “Te Pito O Te Henua” – O Umbigo do Mundo –, não estavam exagerando. Esta pequena ilha vulcânica, perdida na imensidão do Oceano Pacífico, é o pedaço de terra habitado mais isolado do planeta.


Para ter uma ideia: são 3.700 quilômetros até a costa do Chile continental, 4.200 quilômetros até o Taiti e 2.600 quilômetros até as Ilhas Pitcairn, seu vizinho habitado mais próximo. Em qualquer direção que você olhe do litoral de Rapa Nui, há apenas oceano. Muito oceano.


Esse isolamento extremo torna a história da ilha ainda mais extraordinária. Como uma civilização conseguiu não apenas sobreviver, mas prosperar e criar obras monumentais em um lugar tão remoto? Como os primeiros colonizadores encontraram este minúsculo triângulo de terra no meio de milhões de quilômetros quadrados de oceano?


A chegada dos polinésios

A história aceita pelos arqueólogos conta que por volta do ano 1200 d.C., navegadores polinésios partiram das Ilhas Marquesas, ou Gambier, em grandes canoas, trazendo consigo porcos, galinhas, bananas, inhame e cana-de-açúcar. Após semanas ou meses navegando apenas com as estrelas, correntes e voos de pássaros como guia, avistaram três vulcões emergindo do horizonte.


A ilha era virgem, coberta por uma densa floresta de palmeiras gigantes, algumas com mais de 20 metros de altura. Não havia habitantes humanos, apenas aves marinhas. Os recém-chegados a batizaram de Rapa Nui e começaram a construir uma sociedade.


Durante séculos, a população cresceu e a cultura floresceu. Desenvolveram uma escrita própria – o Rongorongo, uma das poucas escritas independentes criadas na história humana. Construíram centenas de ahus (plataformas cerimoniais) e ergueram quase 900 moais, as impressionantes estátuas de pedra que se tornaram o símbolo da ilha.


O mistério dos Moais

Os moais representam ancestrais divinizados, chefes tribais que, após a morte, se tornavam protetores espirituais de seus clãs. Não eram deuses, mas intermediários entre o mundo dos vivos e o divino. Acreditava-se que, quando colocados sobre os ahus de frente para as aldeias (e de costas para o mar), os moais transmitiam mana – poder espiritual – para seus descendentes.


O segredo do transporte

Durante décadas, o grande mistério foi: como os Rapa Nui transportaram estas estátuas colossais da pedreira de Rano Raraku até as plataformas cerimoniais espalhados pela ilha, alguns a mais de 20 quilômetros de distância?


Teorias surgiram aos montes. Alguns sugeriram extraterrestres, outros propuseram sistemas complexos de trenós. Mas as tradições orais dos Rapa Nui sempre diziam a mesma coisa: os moais “caminharam” até seu destino.


O segredo está no formato da base do moai, que permite balançá-lo para frente e para os lados, criando um movimento de caminhada, com cordas presas à cabeça, que permitem controlar a direção e o ritmo.


Essa técnica explica o motivo de tantos moais terem sido encontrados “a caminho” de seus destinos, abandonados ao longo das antigas estradas. Também explica porque muitos têm bases arredondadas – não foram deixados inacabados, essa era a forma necessária para o transporte. Só depois de chegar ao destino final é que a base seria achatada e o moai seria erguido sobre o ahu.


O berço dos gigantes

Um dos momentos mais impressionantes do nosso tour é a visita a Rano Raraku, a pedreira onde nasceram todos os moais da ilha. Mais de 300 moais em diferentes estágios de construção estão espalhados pelas encostas do vulcão.


Alguns ainda estão presos à rocha-mãe, com apenas o rosto visível. Outros estão completos, mas deitados, esperando o transporte que nunca aconteceu. Muitos foram parcialmente enterrados ao longo dos séculos, criando a ilusão de “cabeças” – mas escavações revelaram que são estátuas completas, com corpos enterrados até 7 metros abaixo da superfície.


Por razões ainda debatidas, em algum momento por volta do século XVII, a produção de moais simplesmente cessou. Ferramentas foram abandonadas no meio do trabalho. Estátuas quase completas nunca foram terminadas. Foi o fim de uma era.


A fileira dos quinze

Se Rano Raraku é a fábrica, Ahu Tongariki é a obra-prima. Com seus 15 moais perfeitamente alinhados, é o maior ahu já construído na ilha: uma plataforma de 220 metros de comprimento.


Em 1960, um tsunami causado por um terremoto no Chile varreu a costa da ilha, jogando os 15 moais – cada um pesando várias toneladas – terra adentro, alguns a mais de 100 metros de distância. As estátuas ficaram caídas e espalhadas por décadas.


Entre 1992 e 1996, uma equipe chileno-japonesa realizou uma das maiores restaurações arqueológicas já feitas. Cada moai foi cuidadosamente reposicionado, e hoje Tongariki voltou a ser o espetáculo impressionante que era séculos atrás.



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