Florença, o berço do Renascimento

Cabe numa caminhada de meia hora, mas mudou a história do mundo. Foi em Florença, entre os séculos XV e XVI, que um punhado de artistas e pensadores virou a página da Idade Média e deu início ao Renascimento, a explosão criativa que reinventou a arte, a ciência e a própria forma de o ser humano se enxergar.
Poucos lugares do planeta concentraram tanta genialidade em tão pouco espaço, e caminhar por suas ruas ainda hoje é andar dentro de um museu a céu aberto.
A transformação em arte
Florença enriqueceu com os bancos e o comércio de tecidos. Sua moeda de ouro, o florim, tornou-se tão confiável que passou a ser aceita da Inglaterra ao Oriente e copiada por reinos inteiros.
Essa era a moeda-padrão do comércio europeu, numa época em que cada cidade cunhava a sua. A família mais poderosa da cidade, os Médici, transformou parte dessa fortuna em algo inédito: o mecenato, o financiamento sistemático de artistas.
Encomendar a melhor obra do melhor pintor virou disputa de prestígio entre famílias e entre cidades rivais. Foi a competição, tanto quanto a fé ou a beleza, que empurrou a arte para a frente.
A aposta impossível de Brunelleschi
O símbolo dessa audácia é a Catedral de Santa Maria del Fiore, o Duomo. Ela passou décadas sem teto: ninguém sabia cobrir um vão tão largo sem que tudo desabasse. A solução coube a Filippo Brunelleschi, um ourives teimoso que estudara as ruínas de Roma.
Entre 1420 e 1436, ele ergueu uma cúpula de mais de 4 milhões de tijolos assentados em espinha de peixe, sem os andaimes de madeira tradicionais. Proeza que até hoje é a maior abóbada de alvenaria do mundo.
Conta-se que, para vencer a concorrência, Brunelleschi desafiou os rivais a fazer um ovo ficar em pé numa mesa de mármore. Quando desistiram, quebrou levemente a base do ovo e o equilibrou, como quem diz que toda grande ideia parece óbvia depois de revelada.

Uma fábrica de gênios
A lista de quem viveu ou trabalhou em Florença beira o inacreditável: Leonardo da Vinci, Michelangelo, Botticelli, Giotto, Galileu e Maquiavel. Muito desse legado está reunido na Galeria Uffizi. Construída, aliás, para ser o prédio de escritórios (uffizi) dos Médici, onde está O Nascimento de Vênus, de Botticelli.
A poucos quarteirões, a Galleria dell’Accademia guarda o Davi de Michelangelo: cinco metros de mármore esculpidos entre 1501 e 1504 a partir de um bloco defeituoso que outros escultores haviam abandonado.
Nem tudo, porém, foi luz: foi na Piazza della Signoria que o frade Savonarola queimou obras de arte na “Fogueira das Vaidades”, em 1497. E, no ano seguinte, foi ele próprio queimado no mesmo lugar. Florença é assim, feita de genialidade e de contradição, em doses igualmente generosas.

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